Havia terminado finalmente o frio do Inverno, ao cerrar o infindável
portão feito de um milhão de árvores instala-se um silencio espaçoso
reconfortante mas no entanto infindávelmente mais tenso, pois se
do outro lado simplesmente se concentrava em sobreviver, essa emoção
transfigura-se aqui numa ansiedade determinada em que ambos os exércitos
se olham a distância, separados apenas por um pequeno rio sedoso. O
colossal silencio faz zumbir os ouvidos com a sua totalidade, e que
outra resposta poderia haver quando dois adversários que reconhecem a
sua mútua destruição que advirá brevemente e simultaneamente a resolução
de que irão impor-se os seus próprios fins de boa vontade. Mas no
minuto seguinte tudo muda, as tropas começam com galhofas despreocupadas
e coisas demais, uns cospem para o chão, outros bocejam, e sem sequer o
som de uma corneta para indicar o "À carga!" nem muito menos o
porta-bandeira competer-se a fazer o seu trabalho, pois fumava do seu
cachimbo, e aliás, todas as bandeiras restantes haviam sido deixadas na
neve - a guerra de símbolos havia acabado, agora só haviam homens - eis
que ambos exércitos vagarosamente passeiam até ao leito do rio onde uma
pequena morte os espera. Dispersam-se e misturam-se pelo rio com a água
nem fresca nem morna até aos joelhos. Se houve um plano de
estratégia foi realmente ignorado, ou quiçá nunca existiu. A primeira
espada é espetada calmamente no abdómen dum soldado Caliceano, o seu
grito de morte não sendo ouvido como mais que um bocejo incrédulo
enquanto submerge na água rasa, mas é assim que a batalha oficiosamente
começa, a brutalidade escalando subtilmente e a passo constante ate já
ninguém se lembrar da calma anterior. Brevemente o sangue será tanto que o
rio mudará de cor, e neste dia há bem mais soldados que gotas de água.
Este festival de morte continua sem fim a vista, por vezes parecendo dar
a vantagem aos Caliceanos, mas quando parece garantida a vitória dos
Punhalescos, a cortina ergue-se e revela-se a plena ilusão que era, pois
os anteriores numeram para lá de mera contagem. Estes últimos tem um truque na manga
no entanto, pois após certas centenas de milhares de sendo este o caso,
convocam um dragão de cinco cabeças com caras de espelhos. Após isto a
situação muda drasticamente, soldados Caliceanos morrem às dezenas por
segundo, o volume de sangue Caliceano sendo agora bem superior ao volume
do rio, que agora enche-se para além das suas margem, banhando a areia
circundante a afogando caranguejos em hemoglobina. Os Caliceanos mudam
de estratégia depois disto, largam as suas armas todas e correm
atirando-se contra as espadas inimigas, procurando não a derrota na
rendição mas a rendição na morte, e não descansarão até o último dos
seus compatriotas der o seu ultimo suspiro. O processo é moroso, sendo o
exercito dos ansiosos perdedores dez vezes maior que o outro, tornando a
sua derrota logisticamente trabalhosa. A fúria dos Punhalescos aumenta
face a esta cobardia e redobram o seu zelo na execução dos oponentes,
mas o simples numero destes é assombroso, cinco Caliceanos desarmados a
atirarem-se para cima de cada e apenas um Punhalesco torna a batalha no
genocídio mais exaustivo concebível. Muitos tropeçam e caiem no rio,
afogando-se no sangue de outros qual caranguejo. O dragão desdobra-se em
dois mas rapidamente sofrem ambos enfartes e tombam sobre o campo de
batalha húmido. Das cinzas renasce um ser dificilmente descritível em
termos de forma, certamente com consistência mas sem aparente
consciência, simplesmente abalroando o sangrento campo de batalha
ceifando indiscriminadamente qualquer um que roce o seu caminho. O calor
e insuportável, muitos Punhalescos embora prossigam a decepar inimigos
já há muito perderam a sanidade e simplesmente continuam a actuar na sua
raiva até colapsarem de exaustão, e o calor não para de aumentar. Os
Caliceanos também há muito que abdicaram da sua razão e correm
ansiosos pela sua destruição. E o vale as portas do grande portão chega a
tal temperatura que morrem agora cem soldados por segundo, e brevemente
se extinguirá toda a vida deste esquecido campo de morte, e é o que
acontece num súbito clarão de luz, seguido de nada mais que silencio e
escuridão, tal como foi no início e sempre será.
No dia seguinte
ele acorda primeiro, e primeiro olha em volta. Depois retira o braço
debaixo da cabeça dela com cuidado para não a acordar e caminha nú até
ao vão da janela para apreciar a paisagem urbana coberta de neve, e
suspira sorrindo. Ela acorda não com o suspiro mas porque tinha de
acordar e trocam “Bons Dias”, enquanto ela se enrola no lençol e
encosta-se a parede. Infelizmente, ele não tem tempo para ficar para
tomar pequeno-almoço que hoje trabalha cedo, assim que veste-se
calmamente, de pé e de olhos fechados enquanto ela observa sem piscar os
olhos, tentando por tudo não esboçar um sorriso. Ele agacha-se para ela
não ter de abdicar do conforto mas também para não o acompanhar a
porta, e ela resignadamente fica imóvel e confortável embora no fundo
gostasse de o levar até lá. "Mais tarde vamos tomar café, sim?", "A que
horas?", "Ás seis e meia.", "Está bem, até logo", e ele vai-se,
matutando sobre até quando durará este frio de Janeiro.
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